Livre para prender-se a mim

Sentados na praça oriental conversávamos enquanto esperávamos o ônibus. Ele estava sentado de jeans e camisa preta, pernas cruzadas sobre o banco, o All Star deitado um de frente para o outro. Eu sorria enquanto sua voz entrava carinhosamente pelos meus ouvidos e fechos de sol acariciavam o meu rosto.
O timbre de sua voz mudou de repente quando ele questionou se poderia passar o fim de semana com seus amigos… Sem mim. Tudo bem. Foi tudo o que eu disse sem ao menos alterar a expressão.
Incrédulo, ele serrou as sobrancelhas e perguntou. “Como assim? Faz quinze dias que estamos namorando e você já está me deixando sair sozinho???”
“Você não me ama a ponto de sentir ciúmes de mim?…” – balbuciou ele com o olhar tristonho.
“Eu te amo a ponto de deixa-lo livre…”  – respondi tocando o rosto dele suavemente.
“E se eu conhecer outra garota?” – insistiu ele querendo deixar-me enciumada.
“A confiança é a base de todo relacionamento. E eu confio em você. Por isso quero que você saiba que eu te amo a ponto de deixa-lo livre… Livre para prender-se a mim, se assim preferir. – disse beijando sua face para me despedir.
Entrei no ônibus e sentei na janela com um sorriso no rosto e um aperto no coração. Tinha certeza de que estava fazendo a coisa certa, mas estava insegura por não saber o que a coisa certa poderia me proporcionar…
Ele ficou parado ali, acenando para mim do outro lado da janela, até ficar tão distante e pequeno que eu não pude mais vê-lo. Adormeci ao som de Stellar e acordei com o celular vibrando. Era uma mensagem dele. Uma lágrima escorreu dos meus olhos.
Cinco anos depois, estou sentada nesta cama de moletom e blusinha, numa noite de sábado rabiscando memórias numa folha de papel qualquer… Levanto a cabeça e ali na sala de estar, esta o mesmo garoto  da praça oriental… Sem camisa, jogando GTA no computador. Ele se vira para mim e assopra um beijo com mão. Eu retribuo.
Tratando-se de sentimentos, a coisa certa, aparentemente nunca faz sentido… Mas apenas a coisa certa pode proporcionar uma vida monótona de agitação interior…
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