Sagrado Feminino

Folclore: O feminino na mitologia brasileira

Com o desenvolvimento das cidades, a rápida evolução da tecnologia e da globalização, o cotidiano torna-se cada vez mais frenético e as tradições populares mais desvalorizadas… Costumes como os de reunir a família para contar histórias já foram completamente substituídos por telenovelas, partidas de videogame e aplicativos de mensagens instantâneas. No entanto, não podemos desconsiderar a importância que tiveram essa tradição e outras para a cultura popular que nos remete às raízes miscigenadas de nossa nação.

O folclore é considerado um conjunto de manifestações intelectuais e artísticas que através da tradição oral, são preservadas e transmitidas de uma geração à outra, caracterizando a identidade cultural de uma determinada região ou país. A palavra folclore tem origem na junção das palavras inglesas folk (povo) e lore (sabedoria ou conhecimento), podendo assim ser entendida por sabedoria popular.

Comemorado no dia 22 de Agosto desde 1965, o folclore brasileiro revela muito sobre a vida de nossos antepassados, elucidando quais eram seus hábitos, vestimentas, danças, cantigas, mitos, lendas, brincadeiras, provérbios, alimentação e até mesmo como pensavam, em que acreditavam, quais eram os comportamentos esperados para a figura masculina e feminina.

Como se sabe, quando os europeus chegaram ao Brasil ele já se encontrava habitado pelos indígenas, e no decorrer da colonização os mitos nativos foram recriados para abarcar todos esses povos. Conforme cita o ensaio Coisas de Mulher e Folclore, no contexto histórico familiar cabia à mulher – mãe, babá e, anteriormente mucama – a socialização dos fatos folclóricos às novas gerações, portanto cabe a esta também o destaque neste artigo.

Deusas na mitologia brasileira

O mito é uma narrativa sagrada que anseia explicar fatos reais, fenômenos da natureza, origem do mundo e do homem através do uso de arquétipos. Eles expressam conceitos morais, filosóficos e éticos de um determinado país, período, cultura e/ou religião viabilizando o convívio social. 

É frequente o mito ser confundido com lenda, devendo fazer-se a distinção com base na ritualização presente ou passada das narrações. Isto porque só há mito onde há rito. A lenda não se ritualiza. Se tal acontece, então não é lenda, é mito.

Icamiabas

O nome Amazonas, que batiza o maior Estado do Brasil e um dos maiores rios do mundo, tem sua origem em uma lenda grega que veio parar em terras brasileiras. Quando expedicionários europeus, liderados pelo espanhol Francisco Orellana, chegaram à região que hoje pertence à Amazônia, em 12 de fevereiro de 1542, encontraram um grupo de índias guerreiras. Segundo os relatos, elas lutavam nuas e viviam em tribos isoladas, sem homens. Eram chamadas pelos índios de icamiabas. Por seus costumes, elas lembravam as lendárias amazonas da mitologia grega, que viviam na Ásia Menor, e logo foi feita a associação entre elas. – Super Interessante.

Imagem: Reprodução

Conforme se conta, as icamiabas amarravam o cabelo trançado envolta da cabeça e enfaixavam os seios para lutar com mais agilidade e embora não tivessem parceiros, tinham filhos. Segundo o mito, uma vez ao ano, em noites de lua cheia, as icamiabas realizavam uma cerimônia sagrada para a deusa Yaci, a mãe-lua, no lago Yaci Uarua (Espelho da Lua). Convidavam os índios guacaris com quem tinham relações sexuais sob a bênção da mãe-lua. Após o ritual amoroso, mergulhavam no lago buscavando no fundo um barro com o qual moldavam um amuleto chamado muiraquitã, que era dado aos convidados em despedida. As filhas que geravam por meio do ritual eram instruídas no manejo de armas e os filhos eram dados a tribo guacaris. O mito das icamiabas representa a luta, força, coragem, persistência, resistência e líbido feminina.

Iemanjá

Considerada o princípio gerador receptivo, a matriz dos poderes da água, a representação do eterno e Sagrado Feminino, Iemanjá personifica os atributos da Grande Mãe, padroeira da fecundidade e da gestação, inspiradora dos sonhos e das visões, protetora e nutridora, mãe que sustenta, acalenta e mitiga o sofrimento dos seus filhos de fé.

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Trazido ao Brasil no século XIII pelos escravos ioruba, o culto ocorre anualmente, às vésperas do Ano Novo e no dia dois de fevereiro, quando milhões de pessoas levam suas oferendas e orações para as praias brasileiras reverenciando Iemanjá a Senhora do Mar.

Caamanha

De origem ameríndia Caamanha a “Mãe do Mato” protege as florestas e os animais silvestres, punindo os desmatamentos, as queimadas e a violência contra a Natureza. Sendo pouco conhecida entre os próprios brasileiros, ela foi transformada em dois personagens lendários: o Curupira e Caapora.

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Descritos como seres fantasmagóricos, peludos, com os pés voltados para trás, às vezes com um aspecto feminino, ambos retratados como guardiões das florestas, que levavam os caçadores e invasores a se perderem nas matas, punindo-os com chicotadas, pesadelos ou até mesmo a morte.

Yara

Também conhecida por Iara, Uiara ou Mãe d’água em tupi ‘y-îara significa “a que mora nas águas” e de acordo com a lenda ela costuma banhar-se nos rios, cantando uma melodia irresistível, atraindo os homens que a vêem para as águas e guiando-os para o fundo dos rios.

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Os que retornam ficam loucos e apenas uma benzedeira ou algum ritual realizado por um pajé consegue curá-los. Os índios têm tanto medo da Iara que procuram evitar os lagos ao entardecer.

Jaci

Imagem: Reprodução

É a deusa Lua e guardiã da noite. Protetora dos amantes e da reprodução, um de seus papéis é despertar a saudade no coração dos guerreiros e caçadores, apressando a volta para suas esposas. Filha de Tupã, Jaci é irmã-esposa de Guaraci, o deus Sol.

Yebá Bëló

A “mulher que apareceu do nada” é a figura principal no mito de criação dos índios dessanas, do alto do rio Negro (fronteira Brasil-Colômbia). De sua iluminada morada de quartzo, Yebá Bëló mascou ipadu (folha de coca) e criou todo o Universo e os seres em sua barriga.

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Em 1974, três artístas amazonenses, Adelson Santos, Aldísio Filgueiras e Márcio Souza, criaram a Ópera Dessana Dessana, visibilizando de a história de Yebá Beló e criando um marco de resistência cultural na Amazônia.

Ceuci

A deusa virgem protetora das lavouras e casas, é o equivalente a “Virgem Maria” da teogonia Anambé, povo indígena natural do Pará. Sendo a gravidez de Ceuci um mistério, tem em seu nome uma referência à Plêiades (constelação que indica a época certa da colheita das frutas maduras, da caça e da pesca).

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Ela é considera a Mãe das Estrelas e também a Mãe do Pranto, a deusa que trouxe à vida Jurupari, Deus Sol responsável por instituir o culto solar e a supervalorização do masculino, representando a diminuição do papel feminino em virtude da visão do homem europeu.

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